O Dia das Crianças é uma oportunidade para celebrar a infância, mas também para refletir sobre aquelas crianças e adolescentes que ainda esperam por uma família. São histórias que nem sempre conhecemos, de meninos e meninas que, por diferentes circunstâncias, foram afastados de suas famílias de origem e aguardam a possibilidade de construir novos vínculos de afeto e pertencimento.
Na Bahia, segundo dados atualizados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), existem atualmente 289 crianças e adolescentes disponíveis para adoção e 1.269 pretendentes habilitados. Isso significa que temos aproximadamente 4,4 pretendentes habilitados para cada criança ou adolescente que aguarda uma família.
Essa realidade se repete em todo o Brasil, onde existem 6.193 crianças e adolescentes disponíveis para adoção e 32.761 pretendentes habilitados. São aproximadamente 5,3 pretendentes para cada criança ou adolescente.
Diante desses números, surge uma pergunta inevitável: se existem tantas pessoas desejando adotar, por que tantas crianças e adolescentes continuam esperando?
Uma das principais explicações está na diferença entre o perfil das crianças desejadas pelos pretendentes e o perfil daquelas que efetivamente aguardam adoção.
Um levantamento realizado em maio deste ano, na Bahia, revelou que mais da metade das crianças e adolescentes disponíveis para adoção tinha 12 anos ou mais. Entre eles, 116 já tinham pelo menos 14 anos. Outro dado significativo é que aproximadamente 58% integravam grupos de irmãos, circunstância que pode tornar ainda mais desafiadora a busca por uma família.
Quando falamos em adoção, é natural que muitas pessoas imaginem um bebê ou uma criança pequena. Mas as crianças que aguardam uma família têm idades diferentesj, histórias próprias, experiências difíceis e, muitas vezes, vínculos importantes com seus irmãos. Algumas apresentam deficiência ou necessidades específicas de saúde. Outras estão entrando na adolescência e já viveram experiências de perdas e rupturas que nenhuma criança deveria enfrentar.
Em comum, todas precisam de cuidado, segurança, afeto e da oportunidade de construir uma história em família.
É importante reconhecer, também, a realidade das pessoas que desejam adotar. Muitas aguardam durante anos, alimentando o sonho da maternidade ou da paternidade. Esse desejo merece respeito e acolhimento. A adoção envolve uma decisão profunda, que exige preparação, responsabilidade e disponibilidade emocional.
Mas talvez seja necessário ampliar o olhar sobre as possibilidades da adoção.
Conhecer as crianças reais, compreender suas histórias e perceber que a construção de uma família não depende de uma idade idealizada pode abrir caminhos antes não considerados.
A adoção de crianças maiores, adolescentes, grupos de irmãos e crianças com deficiência ou necessidades específicas de saúde integra o que chamamos de adoções necessárias. São situações que exigem atenção especial porque envolvem crianças e adolescentes que, em razão de suas características ou condições, encontram maiores dificuldades para serem adotados.
Na Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça da Bahia, temos procurado fortalecer as ações de sensibilização para essas adoções, aproximando a sociedade dessa realidade e incentivando uma reflexão mais consciente sobre o significado de formar uma família.
Iniciativas como o A.DOT, que possibilitam conhecer um pouco mais sobre crianças e adolescentes que aguardam adoção, contribuem para romper preconceitos e mostrar que, por trás dos cadastros e das estatísticas, existem pessoas com sonhos, sentimentos, talentos e histórias que merecem ser conhecidas.
É preciso lembrar, ainda, que o acolhimento institucional é uma medida de proteção temporária. À medida que os anos passam, as possibilidades de adoção tendem a diminuir, e muitos adolescentes se aproximam da maioridade sem terem encontrado uma família. Aos 18 anos, precisam iniciar uma nova etapa de suas vidas, frequentemente sem a rede de apoio familiar tão importante nesse momento.
Por isso, falar sobre adoção de crianças maiores e adolescentes é também falar sobre oportunidades que não podem esperar indefinidamente.
A adoção deve partir de um desejo espontâneo e deve refletir uma escolha consciente. Mas é importante oferecer informações que permitam
ampliar perspectivas e permitir que o desejo de adotar encontre possibilidades que talvez ainda não tenham sido consideradas.
Neste Dia das Crianças, meu convite é para que possamos olhar com mais atenção para aqueles que ainda esperam. Que as pessoas que já trazem consigo o desejo de adotar se permitam conhecer as crianças e adolescentes que realmente estão disponíveis, suas histórias e suas possibilidades.
Porque, de um lado, existem crianças e adolescentes esperando por uma família. Do outro, existem pessoas esperando por um filho.
Talvez o que falte, em muitos casos, seja a oportunidade de se conhecerem.

Andréa Paula Miranda
Desembargadora do Tribunal de Justiça da Bahia e Coordenadora da Infância e Juventude