Dois meses é pouco para medir a saudade de um grande amigo, mas talvez bastem para compreender e honrar à altura uma permanência eterna. Em Paulo Furtado, esse imperativo se revela na pertença à Academia de Letras da Bahia e à Academia de Letras Jurídicas da Bahia: o nosso conterrâneo que, com palavra vibrante e clareza tão poderosa, teve assento no STJ.
Destacam-se nele o êxito socioliterário e aquele grau de especialização intelectual que o ministro tão bem encarnou. Não por acaso, o acadêmico Edvaldo Brito, em seu discurso de posse na ALB, registrou: Paulo Furtado “honra a sucessão de Josaphat”.
Refiro-me, portanto, a uma linhagem rara, do mais alto calibre. Na ALB, Paulo Furtado recebeu e ensolarou a Cadeira 30, fazendo jus à sombra grandiosa de Josaphat Marinho, Nestor Duarte, Alfredo Vieira Pimentel, Roberto José Correia, do fundador Prado Valladares e do patrono Joaquim Monteiro Caminhoá.
Retomando a tipologia criada por A. L. Machado Neto em A Bahia Intelectual (1900–1930), Rommel Robatto aplicou-a ao pensador Taurino Araújo no ensaio Taurino Araújo: baiano de vanguarda, teoria universal, destacando-lhe, igualmente, a capacidade de agregação social, êxito socioliterário e grau de especialização intelectual.
Há nisso tudo algo que ultrapassa a biografia de Paulo Furtado e permite compreender a vocação desta terra para produzir homens e mulheres de pensamento e obra diversificada e grandiosa, com presença social e capacidade de agregação.
Foi uma linhagem dessas que Paulo Furtado recebeu e, sobretudo, honrou altaneiro — o Águia do Direito Civil da Bahia, como carinhosamente eu o chamava.
Entre Josaphat Marinho e Severino Vieira, entre a tradição recebida e a inaugurada, Paulo Furtado fez-se, ele próprio, tradição: sempre pioneiro, foi desembargador ainda jovem, aos 39 anos, e presidiu o TJBA entre 1992 e 1994. Na ALB, demonstrou igualmente como se recebe e perpetua um legado; na ALJBA, deixa um legado enorme e desafiador.
Por isso, a maior homenagem que se pode fazer à sua figura pública não consiste apenas em recordar o que realizou, mas em garantir que seu legado ensolarado continue através de uma tradição que atravessa séculos, reunindo direito, poesia, arte, memória, obra e presença, e na qual a grandeza recebida é multiplicada.
Sim. Na ALJBA, foi o primeiro titular da Cadeira 37, cujo patrono é Severino Vieira, jurista, scholar, homem de letras e de vida pública, expressão da tradição baiana em que saberes, epistemologias e atuações tampouco se deixaram aprisionar por uma única especialidade; nascido no Conde, terra do saudoso amigo desembargador José Bispo Santana.
É assim que, luminosamente, em reverência absoluta à memória de Paulo Furtado, essa tradição precisa continuar.

Guilherme José de Carvalho Neto
Analista judiciário do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia